Gonçalo Ferraz, Christina Fiorini Tosca* e Amanda Santos de Bem Pereira**

*Curso de Graduação em Enfermagem e **Curso de Graduação em Fisioterapia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Esta cartilha pretende apoiar autores e leitores na revisão de textos acadêmicos em Português.  De 2005 a 2015, o Prof. Gonçalo Ferraz aplicou um exercício de redação científica nas suas disciplinas de graduação e pós-graduação, sob a forma de um ensaio de cinco parágrafos no qual o aluno era convidado a criar uma ideia científica dentro de um formato pré-estabelecido. Naturalmente, esse desafio de criatividade dentro de regras deu origem a uma variedade de resultados, incluindo erros de gramática e erros de estilo muito interessantes. Inicialmente, no lugar da Cartilha tínhamos uma lista de ‘frases célebres’ que agrupava os erros mais memoráveis em categorias minimamente lógicas. À medida que a lista foi crescendo, no entanto, a tarefa de categorização foi se tornando mais complexa e em 2015, duas alunas de graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Christina F. Tosca e Amanda S. de B. Pereira, empreenderam a tarefa de reorganizar as ‘frases célebres’, redefinir as categorias e identificar algumas soluções para os problemas. Assim nasceu esta Cartilha.

Hoje, a Cartilha de Revisão de Textos é principalmente uma ferramenta de ensino. Do ponto de vista do professor, ela procura não ‘dar o peixe’, mas ‘ensinar a pescar’. O professor que ‘dá o peixe’ atua como editor e aplica diretamente no texto as soluções para os erros em que o aluno incorreu. ‘Dar o peixe’ é uma atitude sensata quando o foco está na melhoria imediata do texto. Se o foco está na instrução do aluno, entretanto, o mais importante não é editar. O mais importante para a instrução é revisar, identificar os erros sem os resolver e deixar ao aluno a tarefa de procurar soluções. Na prática , esta Cartilha é um catálogo de erros:  cada tipo de erro tem um símbolo que o professor anota à margem do texto e cada símbolo tem uma descrição na Cartilha com exemplos e sugestões de correção. Para que a Cartilha cumpra realmente o propósito de apoiar autores e leitores, é importante que a identificação dos erros seja precisa e que ela reflita os problemas mais recorrentes nos textos acadêmicos em língua portuguesa. Esse é o nosso maior desafio.

Antes de sair apontando erros, cabe uma consideração sobre o significado de certo e errado na escrita. Em que consiste exatamente um texto ‘correto’? A resposta curta é ‘ninguém sabe!’ A resposta longa é suficientemente complexa para inspirar modéstia. O linguista Otto Jespersen, por exemplo, no Capítulo 5 do seu livro Mankind, Nation and Individual from a Linguistic Point of View identifica sete critérios de correção linguística diferentes, todos aplicáveis na avaliação de um texto acadêmico em português. Bem mais superficialmente, nós reconhecemos três critérios principais: a norma, a lógica e o uso. Segundo o critério normativo, o texto correto é aquele que segue regras estabelecidas formalmente por uma autoridade amplamente reconhecida, como por exemplo, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Já o critério lógico reconhece que as normas não são eternas; sendo imperfeitas, elas se alteram ao longo do tempo numa busca de consistência lógica com critérios linguísticos da construção de texto. De acordo com esse critério, o correto seria o mais lógico, compreensível e simples do ponto de vista linguístico. Por fim, o critério do uso se afasta da tarefa árdua da adequação das normas ao funcionamento da língua e dá como certo aquilo que é mais usado. 

Os três critérios de correção—normativo, de lógica e de uso—são caricaturas grosseiras de algumas ideias presentes nos debates linguísticos sobre aceitabilidade e gramaticalidade da linguagem. Com eles, não pretendemos resolver os debates mas sim recordar que não existe uma única forma de escrever corretamente. Escrever é uma atividade fascinante que nos permite viajar no tempo e no espaço com alcance superior ao das tecnologias de transporte mais avançadas. Excluindo opções sobrenaturais, escrever oferece o caminho menos ruim para atingir a vida para além da morte; para além, claro, da satisfação imediata da comunicação em vida. Por isso não há tempo a perder na busca de simplicidade e clareza para o texto acadêmico. Esperamos que esta Cartilha seja útil, mas pedimos um uso moderado do nosso catálogo de erros: que todo o revisor se liberte de qualquer argumento de autoridade e que nenhum autor sucumba à sua própria insegurança. Para além disso, só nos resta parafrasear o biólogo e autor André Levy, que ensina aos seus alunos que, para escrever bem, são necessárias três coisas: 1. Escrever; 2. Ler; e 3. Ler como quem escreve.

Uma parte dos erros ou problemas que apresentamos na Cartilha tem uma única solução correta, mas outra consiste em problemas com várias soluções. Nesses casos você precisará entender cada problema e usar da sua liberdade e criatividade para encontrar a solução que lhe parecer melhor. Para ajudar na busca de soluções, apresentamos os problemas em três partes, organizadas por ordem crescente da liberdade que você pode tomar na revisão. Primeiro, listamos um grupo de erros básicos, principalmente de natureza gramatical, com solução bastante óbvia. Depois, um grupo de falhas que requerem soluções não tão básicas, que podem variar de autor para autor. Estas ‘Questões não tão básicas’ também são principalmente gramaticais, mas algumas já requerem considerações de estilo. Finalmente, apresentamos recomendações de estilo que podem melhorar a eficácia do seu texto; e aqui você tem a liberdade máxima na busca de soluções.

Este trabalho, apesar de rudimentar, incompleto e em uma língua diferente, é inevitavelmente inspirado pelo livro The Elements of Style de W. Strunk, Jr. & E. B. White e pelo guia The Bedford Handbook de Diana Hacker. Os exemplos vêm de uma variedade de fontes, desde a literatura impressa até a internet. No entanto, tentamos ilustrar a maioria dos problemas de redação com exemplos retirados de ensaios de alunos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus, ou da UFRGS, em Porto Alegre. Agradecemos a todos os alunos pelo estímulo do seu esforço e pela criatividade dos seus textos. O Prof. Glauco Machado, da Universidade de São Paulo, fez uma leitura crítica detalhada da Cartilha e nos ajudou a encontrar erros que teriam destruído a nossa credibilidade para revisar o que quer que fosse. Somos muito gratos ao Prof. Glauco e assumimos toda a responsabilidade por qualquer falha introduzida após a revisão dele. Nenhum dos autores desta cartilha é profissional do ensino da língua portuguesa e consequentemente, é inevitável que a nossa aventura por território desconhecido resulte em erros de percurso. Pedimos que você, usuário, entre em contato conosco sempre que tiver sugestões de como identificar, organizar ou resolver melhor os problemas mais recorrentes na revisão de textos acadêmicos em Português. Esperamos que o nosso trabalho facilite o seu trabalho.

 

chave de erros e seus símbolos

Regras básicas:

Acentuação [ac]

Conjugação de verbos [cjv]

Discordância de gênero ou número [dgn]

Discordância de pessoa e verbo [dpv]

'e' inapropriado [e-]

Erro no uso de maiúscula ou minúscula [mM]

questões não tão básicas:

Falha de coerência [co]

Colocação de pronomes oblíquos [cpo]

Frase longa [fl]

Falha de paralelismo [||]

Abuso de pronomes demonstrativos [pd]

Falha de pontuação [pt]

Redundância [rd]

Sujeito oculto [so]

Falta de fundamentação [ff]

 

questões de estilo:

Frase longa [fl]

Linguagem inexata [lx]

Vício de linguagem [vl]

Linguagem rebuscada [lr]

Voz passiva desnecessária [vpd]

 

 

Regras Básicas


erros de acentuação

A maior parte dos erros de acentuação é detectável por corretores de ortografia do seu processador de texto. Quando estiver na dúvida, uma boa referência para entender as regras de acentuação básicas pós-acordo ortográfico é:

http://www.brasilescola.com/gramatica/acentuacao.htm

O erro de pontuação mais frequentemente cometido no Brasil é o uso incorreto da crase (ou acento grave). Isto é bem compreensível porque no Brasil não existe diferença de som entre o a e o à, ao contrário do que acontece em outros países de língua portuguesa onde o som do a é fechado e o do à é aberto. Mas infelizmente, tal inconveniência fonética não nos desobriga de usar corretamente a crase. Para evitar erros, lembre que o a com crase sempre deriva da fusão de uma preposição a com um artigo definido ou pronome no gênero feminino. Se o substantivo que vem após o à é masculino, pode ter a certeza que não deve usar a crase. Por exemplo:

João e Maria saíram para um passeio à cavalo.

Essa é uma construção que não pode fazer sentido em situação alguma, porque você sempre se refere a um determinado cavalo como o cavalo. Ou seja, o cavalo da Maria é sempre o cavalo e nunca a cavalo. O certo seria escrever:

João e Maria saíram para um passeio a cavalo.


conjugação de verbos

A maioria de nós procura escrever corretamente seguindo apenas a intuição sobre o que é certo e errado no uso da língua. Não há nada de errado nisso quando a intuição é suficientemente correta. Quando não é, no entanto, é importante parar para pensar na gramática. Uma grande parte dos problemas básicos no uso de verbos tem que ver com problemas de discordância de pessoa e número, mas isso não é tudo. O uso de um verbo se caracteriza pela pessoa, número, modo e tempo – e há erros de uso que derivam de trocas de modo e tempo verbal (para relembrar a diferença entre modo e tempo veja http://www.infoescola.com/portugues/tempo-e-modo-verbal/). Por exemplo, na frase:

Se ele dispor de tempo, responderá em breve,

o verbo dispor aparece incorretamente no modo infinitivo. No entanto, precisamos do verbo no modo subjuntivo para expressar a ideia de condicionamento. Como nos estamos referindo a algo que pode vir a acontecer, o tempo verbal deverá ser o futuro. Logo, precisamos conjugar o verbo dispor no futuro do subjuntivo:

Se ele dispuser de tempo, responderá em breve.

O exemplo acima mostra a troca de um tempo e modo por outro, mas alguns erros bastante comuns não trocam uma coisa possível por outra coisa possível, eles simplesmente incluem na frase uma palavra que não existe. Por exemplo, em 2 de julho de 2012, o site de notícias terra.com.br publicou uma matéria com o seguinte título:

Brasil interviu para Venezuela entrar no Mercosul, diz Uruguai

A palavra interviu, embora muito usada, não é uma opção entre as conjugações do verbo intervir. O correto nesta situação, seria recorrer ao pretérito perfeito do modo indicativo e escrever:

Brasil interveio para Venezuela entrar no Mercosul, diz Uruguai


discordância de gênero e número

O importante aqui é não esquecer o gênero nem o número do sujeito de uma frase. Algo que é masculino quando aparece na frase pela primeira vez, não deve aparecer como feminino na segunda. Por exemplo, tente encontrar o que há de errado com a frase:

Os fatores que facilitam a transmissão de doenças infectocontagiosas devem ser levadas em consideração na arquitetura dos hospitais.

Achou? Naturalmente, devem ser levadas precisa concordar com os fatores. São os fatores que devem ser levados em consideração e não as doenças infectocontagiosas. Para estabelecer uma concordância, você precisa achar o sujeito da frase e não o substantivo mais próximo. A redação correta seria:

Os fatores que facilitam a transmissão de doenças infectocontagiosas devem ser levados em consideração na arquitetura dos hospitais.

O mesmo tipo de erro aparece em discordâncias de número, nas quais um sujeito singular é associado a uma conjugação de verbo no plural, ou vice-versa. Na frase:

A multidão cercou o palácio, e logo começaram a gritar palavras de ordem.

Quem começou a gritar foi, obviamente, a multidão. Logo, o correto seria escrever:

A multidão cercou o palácio, e logo começou a gritar palavras de ordem.

Normalmente, os erros de discordância de número são resultado de falhas de revisão do texto. Todos cometemos erros de redação (e inclusive os autores deste documento, não estão livres da possibilidade de deixar passar alguma falha). No entanto, todos temos a obrigação de revisar cuidadosamente os nossos textos antes de divulgá-los. Para além da revisão, há outro cuidado básico para evitar discordâncias de gênero e número que é muito importante no texto científico: evite frases muito longas. Quanto mais longa a frase, maior a possibilidade de separação entre sujeito e verbo. Quanto maior a separação, mais fácil é deixar passar uma discordância. Veja mais a respeito deste problema no próximo item.


discordância de pessoa e verbo

O verbo precisa sempre concordar com a pessoa e com o número do sujeito. No ponto anterior, falamos sobre discordância de número e de uma variante de pessoa – o gênero. Aqui vamos ver alguns exemplos mais gerais da discordância de pessoa verbal. Vale a pena separar esses dois tipos de discordância porque, enquanto a discordância de gênero costuma ser uma consequência de falha na revisão, a discordância de pessoa frequentemente resulta de desconhecimento sobre o uso correto do verbo. Ambos os problemas são detectáveis por um corretor digital de gramática, mas é importante estar ciente deles porque os corretores nem sempre funcionam melhor que o nosso cérebro. Por exemplo, veja se encontra algum problema na frase:

Quando o governo mudar, poderá ainda haver mais cortes.

A conjugação poderá concorda com o substantivo governo, que está na primeira pessoa do singular. No entanto, o governo não é o sujeito da ação. Na realidade, quem poderá haver são os cortes, que estão na primeira pessoa do plural. A formulação correta seria:

Quando o governo mudar, poderão ainda haver mais cortes.

Outro exemplo, que felizmente não é comum na linguagem científica, aparece em expressões de submissão por meio de pronomes de tratamento formais, como ‘Vossa Excelência’. Isto é comum em linguagem jurídica e ocasionalmente pode aparecer em outros contextos.

Vamos esperar que Vossa Excelência manifeste vossa escolha.

O problema é que os pronomes de tratamento formal, como o pronome de tratamento ‘você’, requerem conjugação do verbo na terceira pessoa do singular e não na segunda pessoa do plural. O correto seria:

Vamos esperar que Vossa Excelência manifeste sua escolha.

Por fim, os problemas mais difíceis de discordância de pessoa verbal talvez sejam os que derivam da associação do verbo a um sujeito que não está completamente explícito na frase. Isto é comum quando um verbo se refere a uma quantidade de algo. Nesses casos, por uma questão de uso e não necessariamente de norma rígida, o verbo é associado ao ‘algo’ e não às unidades de contagem. Por exemplo, quando alguém diz:

Fazem dois anos que ninguém pensa na falta de água.

O verbo fazer se refere ao tempo que passou. Este tempo pertence à primeira pessoa do singular e está oculto da frase – na verdade ele não precisa aparecer lá. Mas não por isso o verbo fazer pode discordar da primeira pessoa do singular. O correto seria escrever:

Faz dois anos que ninguém pensa na falta de água.


'e' inapropriado

A conjunção e combina orações ou palavras, dando a ideia que duas coisas que poderiam ser separadas, estão na verdade juntas. A utilização desta conjunção não pode perder de vista quais são as duas coisas que estão sendo combinadas, por isso é muito difícil que um e no início de uma frase faça sentido. O exemplo abaixo mostra duas situações de uso inapropriado da conjunção e, uma no início de uma frase e outra no meio:

Na anestesia inalatória um composto anestésico, como o halotano, isoflurano, desflurano e entre outros, é aplicado como forma de gás associado ao oxigênio e absorvido pelo paciente pelas vias respiratórias. E na anestesia intravenosa o anestésico é injetado na corrente sanguínea, cujo composto pode ser o tiopental, propofol e cetamina.

Este exemplo revela outros problemas para além do uso da conjunção e. Em particular, a autora fez uma distribuição da informação pelas duas frases que dificulta a pontuação e, consequentemente, a compreensão da informação essencial. Uma solução que lida com os dois e problemas e conserva toda a informação apresentada seria:

Na anestesia inalatória, compostos como o halotano ou o isofluorano são associados ao oxigênio, aplicados na forma de gás e absorvidos pelo paciente por via respiratória. Já na anestesia intravenosa, outros compostos (como o tiopenal, propofol, ou cetamina) são injetados diretamente na corrente sanguínea.


Erro no uso de maiúscula e minúscula

A língua portuguesa e a linguagem científica têm algumas convenções sobre o uso de letras minúsculas ou maiúsculas. Para evitar confusão na cabeça do leitor, é importante que respeitemos essas convenções consistentemente. A quebra de regras básicas é um sinal de desatenção à revisão do texto e pode comprometer a sua credibilidade. Se imagine como leitor de um texto científico em que o autor usa maiúscula na primeira letra dos nomes de algumas pessoas, mas não de outras. Será que o autor está querendo transmitir alguma informação com essa diferença? O que seria? Ou será que foi só um descuido? Mas se foi descuido, significa que você não pode confiar no autor para ser consistente no uso de letra maiúscula em nomes de pessoas. Porque razão então você confiaria nele para ser consistente em outras tarefas? Lembre que, muitas vezes, a pessoa que vai ler o seu texto não conhece você. O cuidado que você coloca na redação e revisão é a única janela que o leitor tem para avaliar a sua credibilidade. Quer o leitor faça um juízo certo ou errado, seu texto será a única base para ele decidir se acredita em você. Então, se você precisa conquistar a confiança do leitor, seja cuidadoso.

Uma situação particular em que é importante cuidar o uso de letra maiúscula e minúscula é no emprego de nomes científicos. Por convenção, as espécies são identificadas com uma nomenclatura binominal (que usa duas palavras). A primeira palavra do nome de uma espécie se refere ao seu gênero e se escreve sempre com letra maiúscula. A segunda palavra é o epíteto específico (identifica a espécie dentro do gênero) e se escreve, sempre, com letra minúscula. Por exemplo, a espécie de bactéria responsável pela maioria dos casos de tuberculose, é a Mycobacterium tuberculosis. Ela não pode ser chamada de Mycobacterium Tuberculosis, nem de mycobacterium tuberculosis, nem de mycobacterium Tuberculosis. Para um resumo sucinto das regras de nomenclatura biológica mais importantes veja o sítio web: http://www.curioustaxonomy.net/rules.html.



questões não tão BÁSICAS


falha de coerência

Existem textos literários com o objetivo de expressar o absurdo, que intencionalmente não fazem sentido, ou que têm o sentido de não ter sentido algum. Nos textos científicos, no entanto, o sentido é a alma do negócio. O autor escreve para transmitir uma ideia e as diferentes partes do texto precisam fluir de acordo com alguma ideia que motivou o autor a escrever. Dizemos que existe uma falha de coerência quando o autor se contradiz, ou quando, mesmo que sutilmente, ele parece querer levar o leitor por caminhos diferentes dentro do mesmo texto. As falhas de coerência nem sempre são óbvias na primeira leitura, mas elas são frequentemente fatais para a eficácia do texto. Por exemplo:

É inegável que a atual falta de recursos para as escolas públicas traz sérios problemas ao país. O governo prometeu e cumpriu: trouxe várias melhorias na educação e fez com que os alunos que estavam fora da escola voltassem a frequentá-la. Isso contribuiu para o progresso do país.

Como assim? Existe ou não existe um problema de falta de recursos para as escolas públicas? Este exemplo deixa o leitor completamente desorientado porque a primeira frase parece sugerir que está tudo mal na educação, enquanto as outras duas pintam um cenário de otimismo. O que será que o autor quer dizer? Como é impossível consertar a passagem sem ter mais informação, o leitor fica obrigado a passar à frente e esquecer o texto. Perdeu-se o tempo do autor e do leitor. Não há uma solução padrão para resolver os problemas de coerência. O essencial é você definir o mais claramente possível qual o caminho que quer traçar, antes de começar a escrever. Depois, é só escrever conforme o traçado.


colocação de pronomes oblíquos

Quando precisamos usar uma pessoa como objeto, devemos recorrer aos pronomes oblíquos (meteseoalhe…). A utilização de pronomes pessoais diretos (eutuele…) na posição de objeto dá origem a estropícios gramaticais, como a afirmação:

Eu encontrei ela.

Usando um pronome oblíquo, esta afirmação toma a forma mais correta de:

Eu encontrei-a.

Mas, uma vez utilizando os pronomes oblíquos, começam a surgir dúvidas de colocação. Devo dizer eu encontrei-a ou eu a encontrei? A resposta correta a esta pergunta é um ponto contencioso. A verdade é que existe bastante diferença entre as regras escritas e a prática do dia-a-dia. Não cabe neste guia uma descrição detalhada de todas as regras de colocação pronominal. O essencial se resume a dois cuidados. Primeiro, dê sempre prioridade à clareza e simplicidade da sua linguagem. Clareza e simplicidade são atributos fundamentais de um bom texto científico. Segundo, quando em dúvida dê uma estudada nas regras gramaticais. O sítio web http://www.brasilescola.com/gramatica/colocacao-pronominal.htm apresenta um resumo bem instrutivo sobre os tipos de pronomes oblíquos e as regras para a sua colocação.


falha de paralelismo

Uma parte muito importante da redação de qualquer texto é o exercício de gravar na cabeça do leitor as ideias e as associações entre ideias que queremos transmitir. Uma maneira simples de fazer isso é apresentar as ideias aos pares mantendo alguma estrutura ou significado idênticos entre elas. Esse emparelhamento estabelece um paralelismo entre as ideias, no formato, no conteúdo, ou em ambos. Ao reconhecer o paralelismo, mais ou menos conscientemente, o leitor terá mais facilidade em gravar a associação entre as ideias. O cuidado de cultivar o paralelismo entre ideias associadas envolve escolhas sutis, mas importantes. Veja, por exemplo, esta frase sobre a distribuição da vegetação na margem de um lago:

A vegetação ao longo da margem do lago é estruturada de acordo com a forma com que os herbívoros aquáticos obtêm seus recursos alimentares e por características do solo que alteram a disponibilidade de nutrientes.

O autor nos diz que a vegetação é estruturada de acordo com … e por … Não seria muito mais simples que a vegetação fosse estruturada de acordo com … e com… ou por … e por…? A solução, necessariamente, inclui o cuidado de passar a mesma informação com menos palavras, o que vai permitir maior proximidade entre os dois fatores de estruturação e uma conexão melhor entre eles. Por exemplo:

A vegetação ao longo da margem do lago é estruturada pelo forrageamento dos herbívoros aquáticos e pela disponibilidade de nutrientes no solo.

Clarificamos o paralelismo e ainda economizamos 13 palavras em tempo do leitor.

Detalhando um pouco mais a análise do paralelismo, podemos observar duas formas diferentes de conectar ideias numa frase: o paralelismo sintático e o paralelismo semântico. O primeiro se relaciona com a organização das palavras na frase, em termos de estrutura do texto; já o segundo tem que ver com a correspondência entre os significados. Vejamos exemplos de quebra e ajuste do paralelismo nos dois casos. Primeiro, um exemplo de quebra de paralelismo sintático:

Toríbio gosta de badminton e de praticar luta-livre.

Péssima combinação entre um substantivo e um verbo, de cada lado da conjunção! É claro que podemos servir muito melhor ao leitor se escrevermos:

Toríbio gosta de badminton e de luta livre.

Ou ainda:

Toríbio gosta de praticar badminton e luta livre.

Agora um exemplo de quebra de paralelismo semântico, no significado das ideias:

Toríbio gosta de badminton e de mocotó.

Claro que qualquer um é livre para gostar de badminton e de um bom caldo, mas a questão é se esta é realmente a forma mais eficaz de apresentar os gostos de Toríbio. Não é nenhum crime combinar as duas coisas, aliás, a quebra de paralelismo semântico pode ser um recurso literário muito útil. No entanto, na ausência de intencionalidade, o bom senso nos diz que seria melhor apresentar os gostos culinários e esportivos do Toríbio em frases separadas: Toríbio gosta de mocotó e de brigadeiro ou Toríbio pratica badminton e luta-livre.


Abuso de pronomes demonstrativos

A palavra ‘pronome’ resulta da contração do prefixo ‘pro’ com o substantivo ‘nome’ e designa um tipo de palavra que serve o nome (ou substantivo). Os serviços prestados pelos pronomes ao substantivo são basicamente três: substituir, referenciar e qualificar. Há vários tipos e subtipos de pronomes, o número exato varia com o autor da gramática, mas é possível considerar pelo menos dez (http://www.normaculta.com.br/tipos-de-pronomes/). Neste guia, não pretendemos apresentar cada tipo, mas é interessante ilustrar os três ‘serviços’ ou funções que os pronomes podem ter: substituir, referenciar, ou qualificar. Por exemplo, no caso abaixo, o pronome do tipo pessoal ela, substitui o substantivo professora:

A professora saiu da sala. Ela foi procurar uma vírgula.

O pronome relativo que, no entanto, já pode prestar o serviço de referenciar a professora:

A professora que saiu da sala foi procurar uma vírgula.

E finalmente, para um exemplo de qualificação, temos o pronome demonstrativo essa, que qualifica a professora:

Essa professora foi procurar uma vírgula.

Os pronomes demonstrativos são provavelmente os pronomes mais maltratados da língua portuguesa. Eles são muitos e podem prestar qualquer um dos três serviços acima, mas sempre localizando o substantivo no espaço, no tempo ou no discurso. Alguns exemplos de pronomes demonstrativos são esteestaesseessaaquelesaquelas. Se contrairmos os pronomes demonstrativos com as preposições em e de, obtemos as palavras nestedestenestadesta e assim por diante. Por fim, há uma variedade de palavras que em circunstâncias particulares atuam como pronomes demonstrativos, por exemplo: mesmomesmaprópriotal e semelhantes. Os maus tratos começam quando o autor de um texto sofre da fobia de repetir palavras e acaba sacrificando a clareza do texto à preocupação de não mencionar um substantivo duas vezes na mesma frase ou em frases próximas. Liberte-se dessa fobia o mais cedo possível. O seu texto ficará bem mais fácil de ler.

Uma dica útil no uso de pronomes é evitar o mais possível o uso de mesmo e mesma. Estas duas palavras, pela sua formalidade e ambiguidade, são particularmente contraproducentes na função de substituir o nome. Elas quase sempre obrigam o leitor a voltar atrás. Muitas vezes, o mesmo ou mesma podem ser substituídos por pronomes pessoais sem prejuízo de conteúdo nem de número de palavras. Por exemplo:

A população conhece os problemas do Brasil, e a mesma sabe como resolvê-los.

Esta frase pode perfeitamente ser substituída por:

A população conhece os problemas do Brasil e ela sabe como resolvê-los.

Ou, ainda mais direto:

A população conhece os problemas do Brasil e sabe como resolvê-los.

Outra dica: os pronomes demonstrativos isto e isso diferem pela posição relativa ao substantivo que eles estão referenciando. Isto é algo que vem depois e isso é algo que já foi apresentado. Para não perder o leitor num labirinto de issos e istos, você deve procurar respeitar a direção do tempo. A direção se aplica para todos os pares de pronomes derivados de isto/isso, como este/esse, ou desta/dessa. Por exemplo, no texto abaixo, podemos usar um pronome demonstrativo para substituir a necessidade de conhecer as próprias limitações:

É necessário conhecer as próprias limitações. Isto deve ser feito aos poucos.

No entanto, como o pronome designa algo que foi mencionado antes, é melhor escrever:

É necessário conhecer as próprias limitações. Isso deve ser feito aos poucos.

Alguns autores têm um afã realmente excessivo de eliminar repetição de substantivos. Não caia nesse erro porque o resultado pode realmente dificultar a compreensão do seu texto. Veja a passagem abaixo, extraída de um ensaio sobre a descoberta da penicilina. Nós editamos o texto para corrigir problemas não relacionados com o uso de pronomes e sublinhamos instâncias em que um pronome (demonstrativo ou pessoal) foi usado para referenciar um substantivo.

Fleming descobriu a penicilina por acidente, mas seu crédito não é desmerecido, pois ele precisou de muita habilidade e atenção para interpretar o acidente. Além disso, isso só aconteceu por ele já estar pesquisando um bactericida. Esse interesse por bactérias surgiu quando trabalhou como médico na Primeira Guerra Mundial. Em tempos de guerra um exército forte é o que representa a nação, e esse exército perdia milhares de soldados nos campos de batalha e mais outro numero muito elevado de combatentes por infecções nos ferimentos de guerra, situação essa que o pesquisador queria mudar. Sua descoberta não despertou muito interesse num primeiro momento, contudo, quando estourou a Segunda Guerra Mundial, o medo de perder soldados novamente fez com que a comunidade científica se mobilizasse para trabalhar na pesquisa iniciada por ele.

Uma versão com um uso moderado de pronomes demonstrativos seria:

Fleming descobriu a penicilina por acidente, mas seu crédito pela descoberta não é desmerecido, pois só um cientista com muita habilidade e atenção poderia interpretar corretamente o acidente. Tendo servido como médico durante a Primeira Guerra Mundial, Fleming já tinha prática de pesquisa com bactericidas. Durante a guerra, ele observou que os soldados morriam não só nos campos de batalha mas também, e em grande número, nas enfermarias militares, onde caíam vítimas de infecções nos ferimentos de batalha. Esta era uma realidade que o cientista pretendia contrariar. Inicialmente, a descoberta da penicilina não despertou muito interesse, contudo, quando estourou a Segunda Guerra Mundial e voltou a preocupação urgente de proteger a vida dos soldados, a comunidade científica se mobilizou para desenvolver aplicações para a descoberta da penicilina.

A versão revisada elimina a afirmação Em tempos de guerra um exército forte é o que representa a nação porque ela não acrescenta informação relevante sobre Fleming ou o seu mérito na descoberta da penicilina.


falha de pontuação

Os sinais de pontuação são recursos gráficos próprios da linguagem escrita. Embora eles não consigam reproduzir toda a riqueza melódica da linguagem oral, eles estruturam o texto e orientam não só o ritmo, mas também a entonação. É importante levar em consideração, então, que a pontuação tem uma função dupla: por um lado, ela serve para estruturar, organizando as ideias dentro do texto; e por outro, ela serve para marcar o ritmo da leitura ou da fala. Significa então, que os sinais de pontuação podem ter uma função dúplice. Sem dúvida! De todos os sinais de pontuação, o mais dúplice é a vírgula. Imagine que, por razões de entonação, você prescinde sempre da vírgula junto da conjunção e, porque entende que a conjunção por si só já é suficientemente clara para marcar uma pausa. Parece uma decisão bem de acordo com o que aprendemos na escola. Mas agora considere a seguinte dedicatória de livro:

Este livro é dedicado a meus pais, Kátia Abreu e Deus

O que é que a pessoa realmente pretende dizer? Que ela é filha de Deus e da Kátia Abreu e que está dedicando o livro a seus pais, ou que ela dedica o livro aos pais, a Deus e à Kátia Abreu? Se for a segunda opção, mais plausível, este é um caso em que a pessoa pode dar primazia ao papel estruturante da vírgula (em detrimento do papel fonético) e usar a pontuação para dividir a dedicatória em três partes bem claras:

Este livro é dedicado a meus pais, Kátia Abreu, e Deus

Este exemplo também ilustra como nos problemas de pontuação a solução nem sempre vem de regras rígidas. Muitas vezes a solução vem de decisões que cada um tem de fazer de acordo com o que pretende obter do texto. Mas ainda assim, existem algumas regras de pontuação importantes, mesmo que não sejam rígidas. Uma destas regras é que devemos evitar interpor vírgulas entre o sujeito e o verbo de uma frase. Ou seja, não faz sentido escrever:

Anunciar um produto ou serviço, pode ser mais fácil do que você pensa.

A vírgula após o serviço impõe uma descontinuidade onde o texto deveria correr livremente do sujeito para o verbo. A leitura flui melhor se escrevermos:

Anunciar um produto ou serviço pode ser mais fácil do que você pensa.

Por fim, há exemplos de uso sequencial da vírgula em que podemos prescindir dela junto da conjunção e, sem criar qualquer confusão. Um exemplo seria a descrição:

A casa tem três quartos, dois banheiros, três salas, e um quintal.

Esta descrição certamente precisa de vírgulas entre as várias coisas que a casa tem, mas a frase é perfeitamente compreensível se escrevermos:

A casa tem três quartos, dois banheiros, três salas e um quintal.


redundância

O autor deve respeitar o tempo do leitor, tendo o cuidado de não desperdiçar palavras. Uma ideia deve ser transmitida com as palavras necessárias para conectar quem lê com quem escreve, não menos e não mais. Por vezes, a repetição de uma ideia aumenta a eficácia da conexão, mas há repetições completamente redundantes, que gastam palavras sem qualquer retorno de comunicação. Devemos evitar a redundância, principalmente no texto científico, onde a competição pela atenção do leitor é extrema. Com frequência, a redundância aparece pela utilização de formas de expressão muito correntes na linguagem falada, mas que nada acrescentam num texto escrito. Por exemplo, se eu disser que:

Há 10 anos atrás, eu comprei um grampeador.

O uso da preposição atrás é redundante com a expressão Há 10 anos. Podemos escrever:

Dez anos atrás, eu comprei um grampeador.

Ou:

Há 10 anos, eu comprei um grampeador.

Outra expressão que frequentemente resulta em redundância é metades iguais, como em:

Leco e Júlio dividiram o crepe em metades iguais.

Enquanto ninguém conseguir repartir um crepe em metades diferentes, podemos tranquilamente economizar palavras e escrever que:

Leco e Júlio dividiram o crepe ao meio.


sujeito oculto

Toda a frase precisa ter um sujeito e um verbo. O sujeito indica quem faz, o verbo indica o que é feito. Você dá vida à sua frase escolhendo um verbo que indica uma ação informativa. Mas para que o leitor possa entender o significado da ação, ele tem de saber quem é o sujeito. Uma frase sem sujeito é como um barco à deriva. O barco navega, mas para quem? Em textos literários, existe certamente o espaço para tirar partido intencionalmente da ambiguidade de uma frase sem sujeito, mas na literatura científica não temos esse espaço. Veja a frase:

Proporciona à comunidade informações relevantes a respeito do caso.

Qual informação você extrai dela? Praticamente nada, enquanto não souber quem é o sujeito de proporciona. Quem proporciona? Se pudermos supor que o sujeito é um experimento, por exemplo, poderemos escrever:

O experimento proporciona à comunidade informações relevantes a respeito do caso.

Outro exemplo de sujeito oculto, adaptado de um ensaio de um aluno de graduação:

Além disso, através da leitura de um gene doente faz com que os pesquisadores saibam qual a mutação que originou uma proteína doente.

O problema que salta à vista é que o autor não disse quem faz. No entanto, ao pensar em especificar quem faz, fica evidente que seria melhor trocar o verbo fazer por outro verbo que traduza melhor a ação na frase. Por exemplo, poderíamos escrever:

Além disso, a leitura de um gene doente revela aos pesquisadores qual mutação originou a proteína doente.


Falta de fundamentação

A ciência é um jogo de descobrir verdades. Por isso, no texto científico, ao contrário da ficção ou da liturgia, é muito importante dar sempre um caminho que o leitor possa seguir quando quiser confirmar a veracidade de uma afirmação menos óbvia. Afirmações surpreendentes sem fundamento minam a credibilidade de um texto científico. Por exemplo, se eu escrever:

Cientistas descobriram que os cachorros se fazem passar por seres humanos para conquistar a atenção dos seus donos.

Sem mais informação, essa afirmação tanto pode ser absurda como interessante. Não há fundamentação para saber a que o autor se refere; para além de que o sujeito está praticamente oculto – quem são os cientistas? Se eu fundamentar a frase, no entanto, a informação pode ser mais interessante:

A pesquisa de Takefumi Kikusui revelou que o contato visual entre cachorros e os seus donos provoca liberação de oxitocina no sangue em níveis comparáveis à liberação causada pelo contato visual entre mãe e bebê humanos.

Gastamos mais palavras, sim, mas agora temos uma informação muito mais concreta e duas palavras-chave que podemos utilizar em uma pesquisa no Google para encontrar mais informação. Experimente uma busca por Kikusui e oxitocina. A economia de palavras é importante, mas não é tudo.



QUESTÕES de estilo


frase longa

É possível escrever frases longas inteligíveis e eficazes, mas é difícil. Principalmente no texto científico, no qual a clareza é a primeira obrigação do escritor, a frase curta tende a ser mais clara, mais fácil e mais agradável de ler. Você precisa encontrar o seu equilíbrio para escrever sucintamente sem escrever por tweets. Como na pontuação, não existem regras rígidas para decidir o tamanho de uma frase, mas na dúvida é quase sempre melhor trocar a vírgula por um ponto e começar uma nova frase. Uma frase repleta de vírgulas está pedindo pontos. Se a informação que estava depois da vírgula não merece uma nova frase, então provavelmente ela não é importante e pode ser eliminada. Além do mais, frases longas tendem a afastar muito o sujeito do verbo, o que pode levar a problemas de concordância. A frase abaixo foi extraída do ensaio de um estudante de pós-graduação, onde o autor pretendia defender a importância de tratar cientificamente uma determinada pergunta:

Da resposta a esta pergunta depende a otimização logística da realização de importantes pesquisas em biologia experimental, visto que sua resposta auxiliará na propagação dessa espécie em ambientes controlados, e levará a novos questionamentos referentes a percepção do peixe em relação ao fenômeno das chuvas e a sua resposta fisiológica, seja antecipando a desova para adquirir vantagem durante a cheia ou desovando nas chuvas junto a outros peixes, e partilhando os recursos alimentares e abrigos originados na inundação.

Respire um pouco. Reparando bem, o problema desta frase não é só ela ser longa; ela também faz um uso abusivo de pronomes e da conjunção e. Vejamos uma possível solução para organizar a mesma informação em várias frases mais curtas.

A resposta a esta pergunta vai permitir a propagação dos peixes em ambiente controlado, o que viabilizará novos procedimentos experimentais e abrirá caminho a questionamentos sobre a resposta dos peixes ao fenômeno das chuvas. Controlando o ambiente, será possível entender qual a percepção que os peixes têm da chuva. Observando a resposta fisiológica dos peixes à chuva, será possível entender se eles tendem a antecipar a desova, obtendo vantagens durante a cheia, ou se desovam durante a chuva, partilhando recursos alimentares e abrigos disponibilizados pela inundação.

O texto editado resume a ideia geral no início e depois expande-a em frases separadas. Ainda falta esclarecer vários pontos obscuros, como o significado de antecipar a desova em resposta à chuva. No entanto, estes problemas já não dependem da redação do texto, mas sim do raciocínio subjacente. Certamente haveria outras formas de clarificar a redação quebrando a frase longa em várias frases menores, mas há dúvidas que só podem ser esclarecidas com mais informação.

Vejamos outro exemplo, com menos ambiguidade de significado. Trata-se de uma frase sobre o problema do ritmo atual de extinção de espécies na natureza:

A expansão desordenada da agricultura, o desmatamento, a poluição do solo e das águas, o tráfico de animais silvestres, a exploração abusiva dos recursos naturais estão extinguindo espécies numa velocidade muito maior do que a natureza tem de fazer a reposição.

Neste caso, é fácil resolver o problema só com uma subdivisão em duas frases e com a declaração explícita do tópico na primeira frase:

Vários fatores concorrem hoje para extinguir as espécies numa velocidade maior do a que a natureza tem para repô-las. Entre eles estão o desmatamento, a poluição do solo, a poluição das águas, o tráfico de animais silvestres e a exploração abusiva dos recursos naturais.


linguagem inexata

Aqui queremos chamar a atenção para a importância da clareza de linguagem. Você deve evitar a todo o custo escrever frases com muitas palavras para pouca informação. Para as palavras serem úteis, elas precisam ser usadas de uma forma exata, em que o texto faz justiça ao significado das palavras. Procure resumir a seguinte frase (de um ensaio real) a uma afirmação exata:

Se conhecermos mais profundamente a plasticidade das características fundamentais do nicho de uma espécie sobre o efeito da fragmentação, poderemos identificar modelos que possibilitem antecipar mudanças que reflitam a adequação relativa a permanência de uma população sob condições distintas da comumente encarada pela espécie.

O uso dos substantivos plasticidadenichofragmentaçãomudançasadequação e permanênciacarece de exatidão. O adjetivo fundamentais, também não está claramente definido. Na ausência de clarificação, todas essas palavras podem tomar significados diferentes para diferentes leitores, o que compromete a transmissão de uma mensagem científica. Também não está claro o significado de sobre o efeito. Quem está sobre o efeito? É a espécie, o nicho, ou a plasticidade? E será que o autor quer mesmo dizer sobre? Não será sob? Procurando uma expressão mais exata do conteúdo dessa frase encontramos algo como:

O conhecimento da plasticidade do nicho de uma espécie permite antecipar a sua resposta demográfica às alterações ambientais.

A frase ficou muito mais curta porque a maior parte da frase original é tão inexata que não se pode aproveitar.


vício de linguagem

Defenda-se dos vícios de linguagem. Como a redundância, os vícios de linguagem gastam palavras sem dar o devido retorno ao leitor. Mas eles são piores ainda que a redundância porque não necessariamente repetem uma ideia útil. Alguns vícios (como ‘assim’, ‘né’ e outras interjeições muito faladas) não representam ameaça ao texto porque eles raramente passam da expressão oral para a expressão escrita. Mas existem vícios que aparecem frequentemente na escrita e não expressam nenhuma ideia que mereça o gasto. Por exemplo, na frase:

Encontraremos outra alternativa para solucionar esse problema.

A colocação do pronome indefinido outra antes de alternativa é relativamente comum na linguagem falada, mas é redundante. A palavra alternativa já presume que há mais de uma solução para o problema. A preposição outra parece indicar que em vez de duas ou mais alternativas há três ou mais – e claramente não é essa a intenção. Seria melhor simplificar a frase com:

Encontraremos uma alternativa para solucionar esse problema.


linguagem rebuscada

A linguagem rebuscada é a parente rica da linguagem inexata. Ela é inexata de um jeito especial, que busca palavras caras, ou pouco usuais, para dar ao texto um verniz de sofisticação. Raramente, é possível encontrar um texto que expressa ideias claras em linguagem rebuscada, mas o normal é o rebuscamento ser empregado como um verniz que esconde a falta de ideias. O cantor amazonense Nicolas Jr. escreveu um exemplo extremo de linguagem rebuscada na introdução da sua canção O Presidenciável:

Meu languido e sandeu povaréu brasileiro, é com jocundidade e embusteiro que professo minha verbosidade fabulária de caráter niilista e divinatório. Faço desse usufrutuário um cotilédone do monitório e do minimalismo. Tendo a conjectura como ubiquidade nacional! E tenho dito.

O sucesso da linguagem rebuscada é inversamente proporcional à educação do leitor. Se você pretende informar um leitor educado, deve simplificar ao máximo a sua linguagem. Procure impressionar pela clareza das ideias e não pela excepcionalidade das palavras.


voz passiva desnecessária

O verbo é o músculo da frase e a voz passiva é um relaxante muscular. Sempre que quisermos reforçar a importância de uma ação ou afirmar a responsabilidade do sujeito devemos usar a voz ativa. Por exemplo, em:

Iran quebrou a proveta,

toda a força da frase está no verbo quebrar e a responsabilidade da perda vai diretamente para o Sr. Iran. Se, pelo contrário, quisermos diluir a responsabilidade e direcionar a atenção do leitor mais para junto da proveta e para longe do Sr. Iran, podemos dizer:

A proveta foi quebrada pelo Iran.

Aqui ninguém quebrou nada, pois a força da frase está no verbo ser. Se ocultarmos o Sr. Iran, a frase continua fazendo pleno sentido gramatical. Foi a proveta que se quebrou.

Não é proibido usar a voz passiva, de forma alguma, o importante é lembrar que ela tem um efeito suavizador. A voz passiva retira a ação dos verbos que transmitem ação e a entrega ao verbo ser. A formulação da mensagem na voz passiva faz do objeto sujeito e deixa o verdadeiro sujeito da ação em segundo plano, depois do verbo. Isso resulta em frases relativamente mais difíceis de ler. Vejamos, primeiro, o exemplo de uma frase longa na voz passiva:

Medidas como o fechamento das casas de sauna, que eram local de encontros homossexuais, foram tomadas pela prefeitura de Nova Iorque para tentar diminuir as taxas de transmissão do vírus HIV.

E a sua correspondente na voz ativa:

A prefeitura de Nova Iorque tomou várias medidas para tentar diminuir as taxas de transmissão de HIV, como o fechamento das casas de sauna, que eram local de encontros homossexuais.